De Mary para Mary (2023)
FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Texto Paloma Pedrero
Encenação Maria Do Céu Guerra
Interpretação Rita Lello
Dramaturgia Maria do Céu Guerra e Rita Lello
Tradução Rita Lello
Assistência de Encenação Ruben Garcia e Teresa Mello Sampayo
Cenografia A Barraca
Figurinos Marta Iria
Luminoplastia Vasco Letria
Operação de Luz Ruy Santos
Sonoplastia Ricardo Teixeira
Design Gráfico Inês Costa
Produção A Barraca
M/14
Estreia T. M. António Chainho, 12 de Outubro de 2023
Estreia Teatro Cinearte, 16 de Novembro de 2023
SINOPSE
Mary Wollstonecraft (1759-1797), Filósofa Iluminista, pioneira do pensamento feminista, a mulher que se atreveu a reclamar a igualdade entre mulheres e homens num tempo em que a própria ideia de igualdade era inadmissível. Na sequência do parto sofre de uma febre puerperal aguda. No delírio da febre Wollstonecraft acredita estar a dar uma conferência. O seu único público é na verdade a filha recém-nascida que virá a ser a aclamada escritora Mary Shelley, autora de um dos clássicos da literatura mundial: Frankenstein.
Comovente, dramático, poético, político, pedagógico neste espetáculo Wollstonecraft diz à sua filha e a quantas mulheres e homens a escutarem: “não permitas nunca que te façam comer o pão amarga da dependência. Luta, luta para seres tu própria. E não temas nunca o que os outros possam pensar.”
Texto da AUtora
Antes de introduzir a obra quero recordar que, do seu tempo carregado de misoginia, Sigmund Freud, escreveu-nos acerca da Inveja do Pénis que supostamente as mulheres sentem, por outro lado nada disse acerca da inveja que os homens podem sentir perante a maravilhosa capacidade feminina de carregar vida no ventre.
Nesta obra, Mary Woolstonecraft fala ao público, fala à sua filha recém-nascida, dança entristecida porque sabe que está prestes a morrer.
Mary tem 38 anos e sofre de uma puerperal aguda. Conheceu o amor e sofreu por ele. Foi a mãe de duas filhas de dois homens diferentes e, atreveu-se a reclamar a igualdade entre mulheres e homens num tempo em que a própria ideia de igualdade era inadmissível. Em casa aguarda o regresso de William Godwin, pai da bebé que vemos no berço, mas sabe que o seu tempo está a esgotar-se. Assim aproveita o que lhe resta para dar voz ao amor que tem pela filha, à sua revolta perante a falha de Deus e às ideias que a tornaram uma pioneira na luta pelo feminismo.
Em cena está uma mulher que nas palavras da sua filha Mary Shelley foi “um desses raros seres que apenas surgem uma vez por geração com a missão de fazer jorrar sobre a humanidade, um raio de luz sobrenatural. Ela brilha mesmo que pareça obscurecer-se e os homens creiam que está apagada, mas de súbito reanima-se para brilhar eternamente.”
Pioneira na luta pela igualdade, Wollstonecraft é a autora maldita de “A Vindication for the rights of women.” (1792), muitos a consideraram a mãe do feminismo moderno. Wollstonecraft foi mais longe do que tinham ido as queixas das mulheres, que acreditavam que uma educação igual para mulheres e homens daria lugar à igualdade de género. Ela reivindicava a intervenção dos legisladores para terminar com as tradições e a subjugação feminina e defendia que um sistema nacional de educação gratuita e universal para ambos os sexos, devia ser garantido pelo Estado.
Na sua Obra “Vindication for the rights of women.” Mary condena a educação que se dava às mulheres e que as tornava “mais artificiais e débeis de caráter do que que poderiam ter sido” e que lhes deformava os valores com “noções erróneas acerca do que significa a excelência feminina”, uma educação igualitária permitiria às mulheres levar vidas mais úteis e mais gratificastes. Com outra educação a mulher poderia “praticar medicina, gerir uma quinta, ter uma loja, seria independente e viveria do seu próprio trabalho”.
Paloma Pedrero
Texto da Encenadora
Texto da Atriz
Há anos, poucos, mas não sei quantos, dei a ler à Rita o texto da dramaturga espanhola Paloma Pedrero sobre a vida e o pensamento da fascinante Mary Wollstonecraft cuja obra “Reivindicação dos direitos da mulher” é considerada o primeiro texto feminista da história da humanidade.
Algum tempo passada a Rita informa-me do seu interesse em levar a cena o texto de Paloma “De Mary para Mary” e desafiar-me para participar com ela nessa aventura.
Fiquei encantada e a galope surgem as perguntas.. Mais de dois séculos passados o que terá ainda Mary Wollstonecraft a dizer-nos de importante ou desafiador que ultrapasse a pura história da evolução da luta das mulheres pelos seus direitos. Ela, que morreu em 1797 de febre puerperal doença que eu imaginara extinta com o uso dos antibióticos no combate às infeções, que neste caso decorria da falta de higinie praticada pela medicina, num tempo que já passou.
Ela, vítima de uma ação social que hoje se chama cancelamento, cuja obra mergulhou numa sombra que durou pelo menos um século a dissipar-se, porque entre outras coisas exigia que a educação das raparigas e dos rapazes tinha que ser virada do avesso, não só na escola mas principalmente dentro de casa por ação das mães e dos pais.
Sim, segundo ela, era dentro de casa que se alimentava o vírus da opressão das raparigas, onde ser-se bem educada era saber ser vítima e encontrar nisso a sua razão de viver e até de ser feliz.
Mary escreveu, escreveu muito, fez conferências deixou obras por acabar sobre a condição feminina, “Maria ou os erros da mulher”, casou 2 vezes. Teve duas filhas. A últimas delas é a bebé a quem se dirige este texto que dá base ao nosso espetáculo.
O último marido, aquele a quem considerou o seu companheiro foi o filósofo e político William Godwin que através de uma detalhada biografia nos deu a conhecer melhor a vida Mary Wollstonecraft.
A beeb irá a ser Mary Shelley, autora de Frankenstein. Cujo brilho ajudou a deixar na sombra durante anos o valor da obra de Mary Wollstonecraft que ironicamente Paloma Pedrero chama a “Avo de Frankenstein”.
Mas vamos às questões que desapareceram ou não do nosso tempo. Vale a pena falar da educação das meninas quando os raios nos dizem que nas Academias as raparigas têm melhores classificações e são mais numerosas que os rapazes? E em casa na educação familiar, nessa a que Mary deu tanta importância? E na usada por onde andam os números da febre puerperal?
Este mundo em que nos calhou viver é só um e os números falam por si.
Em Portugal a Rede Nacional de apoio às vítimas de violência doméstica recebeu em 2022 30.389 queixas das quais resultaram a morte de 24 mulheres e 4 crianças, acolheu só no último trimestre do mesmo ano 1.455 pessoas, 54% são ãmulheres, 44.7% são crianças e 1.2% são homens.
No mundo que é só um, o nosso, as infeções pós-parto também têm números e em 2015 (últimos números a que tivemos acesso) registaram-se:
Infeções purpurais - 11,8 milhões de mulheres.
Mortes por febre puerperal 17.900 mulheres.
Vamos ao espetáculo. Os problemas, infelizmente continuam vivos no nosso tempo.
Parabéns à Rita Lello pela sua coragem.
A Mãe
Maria do Céu Guerra
Este espetáculo começou por ser sobre a conversa entre uma mãe e uma filha, a Céu e eu, acerca outra mãe e outra filha. Éramos três… A Mary Wollstonecraft - eu - Mary, a bebé e a Céu.
Quando a minha mãe e eu lemos o texto de Paloma Pedrero e alguns dos textos maiores Mary Wollstonecraft atrevem-nos a pensar que grande parte das suas Reivindicações pelos Direitos da Mulher - publicadas em 1792, há mais de 230 anos - estariam resolvidas ou a caminho de se resolver, que o discurso do chamado “novo feminismo” tivesse desatualizado as exigências da pioneira do feminismo moderno. Fomos pesquisar, ouvimos as palavras de ativistas contemporâneos, pelo contrário: hoje o discurso feminista está muito mais próximo das aspirações de Mary Wollstonecraft do que esteve há 100 anos atrás. Sabemos todos que graças à determinação das sufragastes e suas herdeiras, que advogaram um feminismo mais radical, fizemos caminho e parece estar aberta a via para a colaboração dos homens, e aí encontramos consonância com as aspirações de Wollstonecraft, o tal “mundo de todos, a caminhar para a perfeição” em que os homens estarão tendencialmente a ficar mais sensíveis à questão da discriminação das mulheres, será que estão? “Não, não se vão embora ainda.”
A Mary Wollstonecraft - que é para isso que aqui estamos - é uma filósofa do movimento iluminista, abolicionista, defensora dos ideais da Revolução Francesa, Liberté, Egalité, Fraternité, autora de inúmeros textos sobre educação, ficção, filosofia, política e do primeiro manifesto feminista publicando “Uma Reivindicação dos direitos da mulher.” Uma Mulher singular que estava à frente do seu tempo - odeio esta expressão. É uma expressão insuportável que vemos muitas vezes ser usada para definir pessoas que se distinguiram pelas suas ideias progressistas, ideias que postas em prática fariam a humanidade evoluir, mas que pela idiotia, reação ou conservadorismo dos seus contemporâneos foram adiadas ou mesmo postas de lado. Não é, portanto, essa minoria de iluminados que está à frente do seu tempo é a maioria dos seus contemporâneos que insiste em ficar para trás. E assim continuamos, chamando utopias às ideias que poderiam preservar o planeta e salvar a humanidade.
De Mary Para Mary, ou seja Mary Wollstonecraft para.. a bebé Mary - que já crescida, escritora, desgraçadamente não usou nem o nome da mãe nem o do pai e preferiu adotar o nome do marido - conhecida por Mary Shelley, a mãe do Frankenstein.
O Feminismo tem semelhanças com a criatura de Frankenstein: feito de várias partes, algumas contraditórias e que dificilmente se ligam entre si, contrárias, animado à força de lutas persistentes, fortíssimo mas pouco ágil e que mete medo, medo como um monstro, medo pela força que tem. Mete medo aos homens e às mulheres. Ainda hoje mete medo às mulheres. Tantas vezes ouvi a triste frase: “Ai eu não feminista, gosto muito de homens.” À força de ser ridicularizado tornou-se um estigma de que muitas mulheres têm fugido por ser associado a ser-se pouco feminina, feia, bruta, peluda… enfim.
Nas civilizações egípcias, o pior que se podia fazer a uma pessoa era apagar o seu nome das pinturas funerárias, banindo sua existência. Wollstonecraft passou por algo semelhante. Teve sua identidade reduzida a “esposa de William Godwin”, “Mãe de Mary Shelley”, “Avó de Frankenstein”, image-se até somos capazes de ir para ridicularizar alguém cujo pensamento queremos abafar. Além de ter seu pensamento invisibilizado através de campanhas difamatórias, a sua obra deixou de ser editada durante décadas, séculos. Wollstonecraft caiu num longo e sombrio ostracismo. Foi cancelada. Peço-vos que dediquem um momento para o seu nome : MARY WOLLSTONECRAFT, ela merece. Até já.
A Filha
Rita Lello
PRÉMIOS
Melhor Espectáculo - Festival EmCena (2023)
O que dizem sobre nós
«Barraca homenageia Carlos Avilez»,
in Correio da Manhã (5 de Dezembro de 2023)
inBoa Onda, Correio da Manhã
(1 de Dezembro de 2023)
«A Barraca estreia monólogo "De Mary para Mary" da dramaturga espanhola Paloma Pedrero», in Observador(26 de Outubro de 2023)
Maria do Céu Guerra e Rita Lello falam sobre De Mary para Mary em Nada Será Como Dante (Temporada 5 - Episódio 35, emitido a 5 de Dezembro de 2023)
Fotografia de ensaio de De Mary para Mary (2023)
Mediação de Públicos
O espectáculo pode ser acompanhado uma Aula/Conferência/Conversa intitulada “Bloody Feminism” sobre o projecto e/ou as questões sociais que o envolvem com a Encenadora e a Actriz com contrapartida financeira a combinar.
SESSÃO ESPECIAL
Mary Wollstonecraft, (1759-1797), pioneira do pensamento feminista, a mulher que se atreveu a reclamar a igualdade entre mulheres e homens num tempo em que a própria ideia de igualdade era inadmissível, regressa à Sala 1 da Barraca para comemorar o Dia Internacional da Mulher, 8 de Março, numa sessão extraordinária de «De Mary para Mary» seguida de uma conversa com o público no espaço Café-Teatro do Cinearte.
Comovente, dramático, poético, político, pedagógico, um espectáculo acarinhado pelo público e que já valeu à Barraca o Prémio de Melhor Espectáculo no Festival EmCena.
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