Mariana Pineda (2017)
Texto de Federico García Lorca
Espectáculo de Maria do Céu Guerra
Teatro Cinearte, 10 de Outubro
FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Texto de Frederico Garcia Lorca
Encenação de Maria do Céu Guerra
Tradução de Miguel Martins
Elenco: Rita Lello, João Maria Pinto, Adérito Lopes, Adriana Queiroz, Mariana Abrunheiro, Paula Guedes, Rúben Garcia, Samuel Moura, Sérgio Moras, Sónia Barradas, Carolina Medeiros, Cláudio Castro e Henriques Abrantes
Assistente de Encenação Rita Soares
Cenografia: Miguel Figueiredo
Figurinos: Maria do Céu Guerra
Costureira: Alda Cabrita
Música Original: Pato
Técnicos de Luz: Paulo Vargues, Fernando Belo
Técnico de Som: Ricardo Santos
Vídeo: Paulo Vargues
Mestre Carpinteiro: Mário Dias
Design Gráfico e Cartaz: Arnaldo Costeira
Imagem do Cartaz: Mimi Tavares
Fotografia: Ricardo Rodrigues
Relações Públicas e Produção: Inês Costa, Paula Coelho e Rita Soares
PALAVRAS DITAS*
A Barraca, companhia entre todas escolhida como alvo de perseguição económica, tem visto o crescimento e avaliação do seu trabalho prejudicado por falta de suficiente apoio que lhe permita a divulgação a divulgação e o uso de alguns meios tecnológicos de que a expressão teatral deixou de prescindir. A inexplicável falta de apoio a que estamos sujeitos obriga a que o que se constitui cada ano como projeto novo não possa almejar o público e o brilho que um trabalho com qualidade, devidamente apoiado deseja e consegue. No entanto, o público mantém-se fiel e o lugar da Barraca se não está intacto no meio cultural do nosso País isso só é atribuível à discriminação de uma diferença e uma identidade - que dificilmente se aceita, no meio político-cultural de seitas e capelas. Garcia Lorca diria “senhoritos”. Tudo bem enquanto esses vícios vierem donde já esperamos. Mas…
A Companhia de Teatro A Barraca tem como inspiração a Companhia La Barraca do poeta e dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca e da sua ação no Teatro. Ao fazer o plano para 2017 decidimos programar a criação de uma obra do autor que evoque o assassinato na Guerra Civil de Espanha e o seu empenho como autor envolvido na luta pela Liberdade e pela Cultura do seu povo.
Escolhemos a peça Mariana Pineda na vida e lenda de Mariana Pineda Muñoz. Figura destacada da resistência liberal à tirania de Fernando VII na Espanha do séc. XIX. Em toda a União Europeia Mariana Pineda é bandeira de Liberdade. Levada ao garrote a 26 de maio de 1831, ficou nesse dia assinalado como símbol0 da luta pela liberdade das mulheres e igualdade de género.
O espetáculo de Garcia Lorca estreou-se em 1927 exatamente há 90 anos. Escrita pela poeta entre 1923 e 1925, a primeira montagem foi dirigida pelo autor, teve cenário de Salvador Dalí, sendo a protagonista a grande atriz catalã, intérprete maior de Lorca Margarita Xirgú, ambos amigos pessoais de Lorca e colaboradores da companhia La Barraca. O autor evitou o tratamento político da protagonista, fazendo dela uma personagem romântica, uma amorosa de profundo recorte ético.
Garcia Lorca quis criar uma heroína da liberdade em tempo de opressão. Mas vestiu o texto político como uma história de amor. Amor que se ergue contra o abuso do homem sobre a vontade da mulher, amor que prefere a morte a ceder à prepotência. A Guerra Civil de Espanha e o assassinato de Federico Garcia Lorca fizeram com que Margarita Xirgú atriz preferida de Federico se exilasse na América Latina onde apresentou o seu trabalho em Cuba, Argentina, México, Chile e Uruguai. É neste país que a atriz fixa residência cria uma escola de Teatro que vem a ter o seu nome. É nesse país que representa Mariana Pineda até ao fim dos seus dias. Sem nunca mais ter voltado a Espanha. A peça foi proibida na Espanha de Franco e no Portugal de Salazar e Caetano. Só em 1975 foi levada a cena pelo Teatro Hoje sob Fiama Hasse Pais Brandão. Não voltando a ser representado.
A Barraca ao criar este espetáculo está a focar duplamente o tema da pena de morte uma vez que a sua heroína foi condenada ao garrote por Fernando VII e o seu autor foi assassinado pela tropa franquia no início da Guerra Civil de Espanha. Essa razão fez com que a CML nos convidasse a estrear o espetáculo Mariana Pineda na altura em que se comemora os 150 anos da Abolição em Portugal dessa funesta prática, valorizando assim o histórico contributo do nosso país para esse Ato Inaugural da mudança do papel do homem no mundo, seus direitos e deveres.
A Barraca naturalmente honrada pelo convite para participar no Programa das Comemorações dos 150 anos da lei da Abolição da Pena de Morte em Portugal (1877-2017) mas sem meios para realizar o espetáculo sonhado acredita que a grandeza dos artistas em cena garantirá uma noite especial que festejará uma das mais belas decisões políticas que se tomaram e cumpriram em Portugal.
*Nome de um programa de poesia do querido e insubstituível Mário Viegas eternamente mal tratado pelas instituições e adorado pelo público culto e sensível deste país.
Portugal assumiu uma posição de vanguarda, comparativamente ao resto da Europa, relativamente à abolição da pena de morte. Portugal foi, de facto, o primeiro país a adotá-la sob a forma de lei na Reforma Penal de 1867, recebendo aplausos entusiastas de importantes figuras europeias.
As posições que Portugal assumiu relativamente a esta matéria são, em grande parte, fruto da influência das doutrinas humanitaristas do italiano marquês de Beccaria, a partir de 1764.
Salienta-se a acção de Pascoal José de Mello Freire que, por ordem da rainha D. Maria I, elabora um projeto de Código Criminal onde transparecem as doutrinas preconizadas por Beccaria. É cauteloso quando aborda a questão da pena de morte, porque não esquece que o país conservava muito arraigada a tradição do direito penal clássico, considerando perigosa a aplicação daquela doutrina na sua total expressão. No entanto, contém em si a semente da renovação.
Ribeiro dos Santos, outra das figuras de destaque, pode considerar-se o primeiro abolicionista pelas opiniões que emite no seu estudo acerca desta matéria no Jornal de Coimbra, em 1815, em defesa da desnecessidade e inconveniência da pena de morte.
Para além dos escritos teóricos, foram também publicadas algumas leis avulsas que denotam uma certa permeabilidade à ideia de abolição, como é o caso do decreto promulgado por D. João VI em 1801, que comuta a pena de morte aos condenados a outros castigos, salvo os autores de crimes extremamente graves.
Em 1772 ocorreu a última condenação à pena de morte de uma mulher: Assim, desde o reinado de D. Maria I deixou de vigorar a pena de morte aplicada a mulheres.
Foi de facto com o movimento liberal que se caminhou para uma resolução definitiva. Na Constituição de 1822, um dos artigos proclamava a abolição das penas cruéis e infamantes, mas nada dizia acerca da pena de morte.
No Código Penal de 1837 continua a preconizar-se o seu uso. No entanto, a Reforma Judiciária de 1832 introduzia uma novidade: a possibilidade do recurso à clemência régia. A última execução capital ocorreu em Lagos, em 1846. O Ato Adicional de 1852 abolia a pena de morte para delitos políticos. Em 1867 consagra-se na Reforma Penal e das Prisões a abolição da pena de morte para todos os crimes.
Mariana Pineda foi uma das grandes emoções da minha infância
As crianças da minha idade e eu próprio em rodas que se abriam e fechavam ritmicamente, de mãos dadas todos, cantávamos num tom melancólico que a mim me parecia trágico:
Oh que dia tão triste em Granada,
Que as pedras fazia chorar,
ao ver que Marianita morre
no cadafalso para não denunciar.
Marianita sentada no quarto
não parava de considerar:
"Se Pedrosa me visse bordando
A bandeira da Liberdade..."
Marianita, a bandeira da Liberdade, Pedrosa, adquiriam para mim contornos fabulosos e imateriais de coisas que se pareciam com uma nuvem, um aguaceiro violentíssimo, uma neve branca que vinha até nós da Serra Nevada e envolvia a nossa aldeia com uma brancura e um silêncio de algodão.
Um dia, pela mão de minha mãe, cheguei a Granada e voltou a levantar-se ante mim o romance popular, cantado outra vez por crianças, agora com vozes mais graves e solenes mais dramáticas ainda do que aquelas que encheram as ruas da minha aldeia e, com o coração angustiado inquiri, perguntei, observei muitas coisas e cheguei à conclusão que Mariana Pineda era uma mulher, uma mulher maravilhosa, e a sua razão de existir, o seu principal motor era o amor e a liberdade.
Sobre estas duas cruzes de sorte e de dor, cravadas como ilusões de ótica em falsos espelhos criados por Deuses para dar ao homem um conteúdo de esperança, ela aparece-me como um ser fabuloso e belíssimo, cujos olhos misteriosos seguiam com inefável doçura todos os movimentos da cidade. Tentando materializar aquela figura ideal aparecia-me como o Alhambra com uma lua que lhe adornava o peito, a saia do seu vestido como a orla de mil tons de verde daquela terra e a sua branca anágua bordada como a neve da serra, dentada sobre o céu azul.....
Às personagens criadas pelos autores do Século de Ouro que eu lia com vivíssima emoção, juntava a de Mariana Pineda, que vestia com todo o ímpeto de uma paixão heróica. Mariana Pineda saía do meu intelecto e das minhas mãos de então, armada como uma guerreira, matando com a sua espada de Gran Capitan todos os que não aceitassem o amor e a liberdade como a essência fundamental da vida.
Envolta em alexandrinos, acrósticos e oitavas reais, Mariana Pineda surgia muitas vezes de armadura de ferro na minha imaginação, enquanto o coração suavemente me dizia " que não era aquilo". Mariana Pineda levava nas mãos não para vencer, mas para morrer na forca, duas armas, o amor e a liberdade. Dois punhais que se cravavam constantemente no seu próprio coração.
Mas a mim mesmo eu dizia também que para criar este ser fabuloso era absolutamente necessário falsear a história. E a história é um dado inconvertível que não dá à imaginação outro escape que não seja o vesti-la de poesia nas palavras e de emoção no silêncio e naquilo que a rodeia.
E já consciente da obrigação que a mim próprio me havia imposto de oferecer a Granada, a da água cantora e cristalina, a homenagem do meu carinho e da minha admiração, comecei a trabalhar o romance popular que cantavam nas ruas as vozes puras e graves dos meninos e terminava misturando-se por trás das gelosias com os cantos em tom de oração que me arrancavam lágrimas:
Oh que dia tão triste em Granada
Que as pedras fazia chorar...
Aproximando-me o mais possível do facto histórico e vestindo-o da emoção e da doce poesia das crianças, das irmãzinhas e do silêncio dos conventos, da poesia vigorosa e varonil que acompanha aqueles cavaleiros românticos do seculo XIX em combate pelo amor e pela liberdade, que está representada na belíssima morte de Torrijos e o seu contraste com a pintura da corrida de touros em Ronda la Vieja, touros com barbas e toureiros com patilhas até aos maxilares, conspiradores e apaixonados, ar de liberdade e corrente de opressão e acima de todos esta mulher admirável que com a asa ferida pelo amor faz com que lhe baste a outra a da Liberdade para com ela ganhar a imortalidade.
Tentei que Mariana Pineda, mulher de raízes profundas na Espanha, cante o amor e a liberdade que foi o poema da sua vida, de maneira a que adquira a universalidade dos grandes sentimentos. E assim a minha heroína exclama com uma voz que vem de muito longe:
Eu sou a liberdade porque amor assim o quis
Pedro! A liberdade pela qual me deixaste...
Eu sou a liberdade ferida pelos homens
Amor, amor, amor e eterna solidão.
emoção de noivo.
Embora não seja a primeira, mas uma das minhas primeiras obras, sinto por ela uma emoção de noivo.
FEDERICO GARCIA LORCA
MARIANA PINEDA, 1804 - 1831
Heroína espanhola, viúva e mãe de dois filhos pequenos, foi denunciada por ter bordado uma bandeira com a insígnia "Lei, Liberdade, Igualdade" e acusada de pertencer a uma conspiração liberal.
Ao negar-se a denunciar os seus supostos cúmplices, Pedrosa, membro da chancelaria de Granada e segundo a lenda, secretamente apaixonado por ela, decretou a sua prisão. No meio dos protestos da população, foi julgada e condenada a morrer no garrote. A sentença foi executada no Campo do Triunfo de Granada, enquanto era queimada a bandeira que tinha bordado ou mandado bordar. Mariana Pineda converteu-se imediatamente em heroína e mártir da causa liberal, até ao ponto de inspirar numerosas canções e romances.
Federico Garcia Lorca baseou-se na sua história para escrever a obra teatral Mariana Pineda.
Nascida no seio de uma família nobre de Granada, o seu pai Mariano Pineda Ramirez, era capitão de marinha na Armada. Órfã desde os 15 anos de idade, foi entregue à custódia de um tio paterno, José Pineda. Casou aos 15 anos com Manuel de Peralta e Vale, liberal pertencente à maçonaria e próximo do círculo constitucionalista do Conde de Tesla.
Ao morrer seu marido em 1822 continuou a frequentar os ambientes liberais na década ominosa (segunda restauração do absolutismo 1823 - 1833) que se seguiu ao Triénio liberal (1820 - 1823) que aconteceu na sequência da invasão dos Cem Mil Filhos de São Luis.
A implicação de Mariana Pineda na conspiração constitucionalista em 1826, na qual actuava como intermediária entre os liberais e os exilados de Gilbraltar levantou as suspeitas do alcaide da cidade, Ramon de Pedrosa Y Andrade, que exercia o cargo de subdelegado principal de policia e tinha sido destacado para a Andaluzia oriental pelo então ministro da justiça Tadeu Calomadre, para reprimir qualquer tentativa de sublevação a favor da Constituição de 1812.
Detida pelas autoridades, Mariana Pineda foi submetida a julgamento e posteriormente absolvida por alegar ignorância do conteúdo das cartas e outros documentos encontrados no seu domicilio.
No entanto quando em 1828 preparou com êxito a fuga do seu primo Fernandez Alvarez de Sotomayor, comandante do exército que tinha sido condenado à morte por implicação no levantamento de Riego em 1820, Mariana foi presa sob pretexto de ter dado a bordar uma bandeira roxa com a inscrição "Lei, Liberdade, Igualdade" que tinha servido de insígnia para o projecto revolucionário.
Na sequência de várias fugas e ante a recusa de Mariana Pineda a delatar os seus presumidos cúmplices, foi presa no convento de Santa Maria Egipciaca e na sequência de um simulacro de julgamento foi condenada à morte.
De nada serviu a defesa que em favor da jovem produziu e enviou a Fernando VII um sector influente da cidade. A sentença foi cumprida em 26 de Maio de 1831 no Campo do Triunfo em Granada.
Quase de imediato a lenda converteu Mariana Pineda em símbolo das liberdades e protagonista de Romances de Cordel.
Em torno da sua figura e a partir do mito popular Federico Garcia Lorca escreveu esta peça que se estreou em 24 de Junho de 1927 em Barcelona e foi proibida em Espanha e Portugal durante as ditaduras de Franco, Salazar e Caetano.
MARIANA PINEDA
O ESPETÁCULO
Estreia-se em Barcelona com direcção de Garcia Lorca. Protagonizado por Margarita Xirgu e com cenário de Salvador Dali.
"Teve que ser então Margarita Xirgu, tão valente, tão grande e desinteressada, a que, nos momentos em que as barbas terríveis de Don Ramon de Valle-Inclán iniciavam o seu duelo de morte contra a espada ébria do ditador de Jerez (primo de Rivera) se atreveu a levá-la a cena. Eu estive na sua estreia. Velhos e novos encontrávamo-nos ali, creio que no Teatro Fontalba. A sala estava a ferver. Tremia-se a proibição da peça.
Prolongaram-se muito significativamente os aplausos quando Marianita, já condenada à morte e abandonada pelo seu amante, canta a Liberdade transformada em heroína civil."
RAFAEL ALBERTI
Mariana Pineda estreou-se no Teatro Goya em Barcelona a 24 de Junho de 27. Em 12 de Outubro do mesmo ano estreou em Madrid no Teatro Fontalba. O espectáculo foi um êxito nas duas cidades. Lorca, Dalí e Xirgu eram já nomes que atraíam público, ou por curiosidade pelo moderno como nos dois primeiros casos ou por garantias dadas por muitas grandes interpretações como no caso da actriz catalã. A ajudar ao sucesso constou que a ditadura de Primo de Rivera se sentiu agredida com o libelo pela Liberdade que a peça encerrava e tencionava proibir a obra. Sucesso garantido. As duas carreiras foram acontecimentos e a critica deu especial atenção à obra. À excepção de La Vanguardia, jornal catalão de direita, as opiniões foram unanimemente favoráveis. Antonina Rodrigo ressalva que o critico de La Vanguardia não devia ter qualquer informação sobre a obra ou mesmo sobre a sua heroína pois" chamou-lhe repetidas vezes Mariana de Padilha".
O Grande sucesso da peça só veio a perpetuar-se com as sucessivas montagens nos países de língua espanhola pois as ditaduras sempre impediram o acesso deste texto a cena.
LA BARRACA E A BARRACA
As Bodas de Sangue e A Casa de Bernarda Alba que representei em Cascais levaram-me a estudar a obra de Lorca. Eu, gosto de estudar a obra quase toda, se não toda, dos autores que levo a cena. Depois fiz vários recitais de poesia de Lorca, na Casa da Comédia já tinha feito pequeninas coisas de Lorca: Amor de Dom Perlimplim com Belisa em seu Jardim, coisas mais leves.
A razão por que A Barraca se chama A Barraca: Uma vez, estava na Andaluzia perto de Granada, não era uma cidade, era um pueblo... entrei numa taberna e sentei-me, e estava ali, a usufruir de Andaluzia com o meu querido Mário Alberto. Quando vejo uns homens de boné com um ar camponês, rústico, popular, a falarem de Lorca, e a citarem pequenos poemas seus ao desafio. Passado pouco tempo aquilo começou a ser canção, passou a ser música, passou a ser Cante Jondo de Lorca. E eles sabiam a vida dele, particularidades, e ficaram ali e a gente foi se aproximando.
O grande artista que foi Mário Alberto começou a desenhar o que ali se estava a passar. E aquilo ficou eternamente na minha cabeça. "Realmente este poeta, soube aproximar-se do povo sem nunca transigir no gosto, na qualidade, na Poesia. Foi morto, e a morte tem como dizia o poeta uma importância danada". E foi morto, junto com metade do seu país. A Espanha Republicana que sobreviveu foi sufocada, foi destituída, foi humilhada pelo Franco. E o Poeta era o seu símbolo. Mas o que naquela noite Lorca conseguiu emocionou-me tanto, que comecei a pensar que, o que ele fez, era o que eu gostaria de fazer um dia: teatro culto, mas com tal força poética que a todos emocionava e a ninguém excluía, que percorria a sua terra numa camionetazinha que se monta, desmonta, roda, segue, vai! E que é feito por gente amiga, que se entende para além dos laços exclusivamente profissionais. Foi assim que a companhia que ali começou a ser sonhada, se chamou A Barraca.
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